3. REPORTAGENS agosto 2013

1. CAPA  A CURA DA AIDS
2. POLTICA  COMO ATRASAR UMA VOTAO FALANDO SEM PARAR
3. CINCIA  ENXAMES DE GENTE
4. IDIAS  COMO AS IDEIAS SE ESPALHAM
5. CIDADES  AS LIES DE BOGOT
6. ZOOM  CAMPEO MUNDIAL DE ESCONDE-ESCONDE
7. PAPO  CUTUCARAM A CONSTITUIO
8. ARTE  1 MILHO EM ARTE
9. ECONOMIA  QUANTO CUSTA UM PAS

1. CAPA  A CURA DA AIDS
A CINCIA J SABE COMO DAR O GOLPE NO VRUS HIV: EXPULS-LO DO CORPO HUMANO. CONHEA OS BASTIDORES DA DESCOBERTA MDICA MAIS IMPORTANTE DOS LTIMOS 25 ANOS - E AS HISTRIAS DE PESSOAS QUE J FORAM CURADAS DA DOENA.
REPORTAGEM / Alexandre de Santi, Valquria Vita e Bruno Garattoni

ELE  RUDIMENTAR.  uma bolinha minscula, de 130 nanmetros, com apenas nove genes dentro. O vrus HIV no se compara, nem de longe,  sofisticao de uma clula humana (que tem 20 mil genes) ou mesmo uma bactria (500 genes). Mas ele mudou a histria da humanidade: espalhou pnico, transformou hbitos, arrasou pases africanos, matou 30 milhes de pessoas. O homem respondeu criando os antirretrovirais, remdios que contm a multiplicao do vrus e evitam que o soropositivo morra de Aids. Hoje, 8 milhes de pessoas tm as vidas preservadas por esses medicamentos. Eles no so uma cura, pois no eliminam o vrus - que continua escondido no organismo. Mas essa histria est prestes a dar uma virada dramtica. A cincia finalmente descobriu como dar o ltimo passo: arrancar o HIV dos lugares onde ele se esconde no corpo humano. No ltimo ano, vrios grupos de pesquisadores comprovaram que  possvel expulsar o HIV de seus esconderijos e jog-lo de volta na corrente sangunea - de onde ele poderia ser eliminado, livrando completamente o organismo do vrus. Ou seja, cura. Os pesquisadores mantm cautela, mas a possibilidade tem gerado euforia em setores da comunidade cientifica. Parece que, depois de passar as ltimas dcadas tomando dribles do vrus, a humanidade finalmente pode ter descoberto uma forma de encurral-lo. "H dois anos, se algum falasse em cura, seria considerado maluco. Isso era considerado impossvel", diz John Frater, imunologista da Universidade de Oxford e um dos lderes do Cherub (Collaborative HIV Eradication of Viral Reservoirs), projeto que rene cinco universidades inglesas num estudo contra o vrus. "Estou genuinamente entusiasmado", afirma.

     A tcnica de expulso do HIV  a inovao cientfica mais importante, e instigante, das ltimas dcadas. Mas no  a nica novidade na luta contra o vrus. H pessoas que, por meio de outros procedimentos mdicos, foram curadas da Aids. Em alguns casos, elas desenvolveram resistncia ao HIV; em outros, o vrus desapareceu do organismo. Voc vai conhecer essas histrias a seguir. 

ONDE O VRUS SE ESCONDE 
     Como o HIV  muito pequeno, penetra facilmente nas mucosas genitais durante o sexo, e delas vai para a corrente sangunea, onde encontra sua vtima: as clulas T, peas centrais do sistema imunolgico. O vrus penetra nessas clulas e as escraviza, transformando-as em mquinas de produzir HIV.  um processo diabolicamente eficiente, que gera 100 bilhes de novas cpias do vrus por dia. No comeo, a pessoa no sente nada, no mximo febre e um mal-estar discreto. Mas as clulas T vo morrendo at que, aps alguns anos, o sistema imunolgico fica comprometido - e a Aids se instala. 
     Existem dois tipos de clulas T: as ativas e as inativas.  como no exrcito. Alguns soldados esto de prontido nos quartis e outros vivem na reserva, podendo ser convocados em caso de emergncia. O HIV infecta tanto as clulas ativas quanto as inativas. O problema  que os medicamentos antirretrovirais s agem nas clulas ativas. Nas clulas inativas, que vivem numa espcie de hibernao, o remdio no faz efeito. Isso porque essas clulas no contm um monto de HIV dentro. Na verdade,  algo mais assustador ainda. 
     Elas tm o vrus HIV copiado dentro do prprio cdigo gentico. Isso significa que, conforme vo sendo ativadas pelo organismo (um processo natural, que acontece ao longo da vida de todo mundo), comeam a se reproduzir - e fabricar enormes quantidades do vrus.  por isso que os medicamentos antirretrovirais no curam a Aids. As clulas T inativas funcionam como um enorme reservatrio de vrus. Ele at vai sendo esvaziado aos poucos, na medida em que as clulas inativas vo sendo repostas pelo organismo e o vrus vai sendo eliminado pelos medicamentos, mas isso leva uma eternidade: segundo estimativas, pelo menos 60 anos. Ou seja, o portador de HIV tem mesmo de passar a vida toda tomando antirretrovirais (que provocam efeitos colaterais como hipertenso, diabetes e danos aos rins, fgado e ossos). 
     A menos que exista uma forma de esvaziar  fora os reservatrios de HIV. 
     Essa possibilidade comeou a se desenhar em outubro de 2006, quando o governo americano autorizou a venda de um novo medicamento, chamado vorinostat. Esse remdio foi criado para tratar o linfoma cutneo de clulas T, um cncer no sistema imunolgico. Esse cncer se manifesta na forma de leses na pele, mas se origina no sangue. Ele  tratado com quimioterapia. Mas a quimioterapia s funciona bem com tumores que se multiplicam bastante (porque ela age na reproduo celular). E o linfoma cutneo no  assim. Por algum motivo, ele faz o corpo aumentar a produo de histona deacetilase (HDAC), um tipo de enzima que faz as clulas pararem de se reproduzir. E isso reduz o efeito da quimioterapia. O vorinostat bloqueia a ao dessa enzima, colocando o cncer de novo em estado de multiplicao - e vulnervel  quimioterapia. Atiar o cncer  uma estratgia arriscada. Por isso, o vorinostat s  usado em casos graves, nos quais d resultado (70% dos pacientes respondem a ele). Mais tarde, alguns pesquisadores descobriram que o vorinostat tambm tinha outro efeito: ele desperta as clulas T adormecidas. E isso  valiosssimo no combate ao HIV. Porque quando essas clulas acordam, elas comeam a se reproduzir e jogar vrus no sangue - onde ele fica vulnervel  ao dos remdios antirretrovirais. O HIV  eliminado, as clulas T morrem e, se esse processo for repetido por tempo suficiente,  possvel eliminar todas as clulas infectadas - e sacar o HIV do organismo. 
     David Margolis, da Universidade da Carolina do Norte (EUA), foi o primeiro cientista a testar esse procedimento. "Tive a ideia de acordar o HIV e empurr-lo para fora do corpo, permitindo a erradicao do vrus", diz. Depois de obter resultados positivos em testes de laboratrio, ele ficou trs anos pedindo permisso s autoridades de sade americanas para fazer um estudo em humanos. O vorinostat tem efeitos colaterais, como fadiga, diarreia, hiperglicemia e anemia. Em casos raros, pode levar  formao de cogulos no sangue, o que  perigoso. Mas o grande receio era quanto ao vrus da Aids. Afinal, acordar clulas dormentes e estimul-las a produzir HIV envolve risco. E se o vrus surgisse com alguma mutao, e os medicamentos antirretrovirais no fizessem efeito contra ele? Os pacientes seriam inundados pelo HIV, e morreriam. 
     Mesmo assim, Margolis obteve autorizao para fazer o teste em oito portadores de HIV, que receberam vorinostat. Os resultados foram publicados em 2012 - e reanimaram o interesse da comunidade cientfica. Uma nica dose de vorinostat aumentou em mais de quatro vezes a quantidade de vrus no sangue dos pacientes. Ou seja, a tese se comprovou. Funcionou. O remdio conseguiu o que era considerado impossvel: expulsar o HIV de seus reservatrios (e fez isso sem provocar efeitos colaterais relevanteses). Mas foi um estudo de breve durao. Agora, Margolis est realizando uma nova experincia, na qual os pacientes recebem mais doses de vorinostat, durante mais tempo. 
     Pelo menos um estudo, feito pela Universidade de Aarhus (Dinamarca) em parceria com a Universidade do Colorado (EUA), comprovou o mesmo efeito em clulas humanas testadas em laboratrio. "Ainda temos um longo caminho, mas acredito que a cura para o HIV seja alcanvel", diz Ole Sogaard, lder do estudo dinamarqus. Sogaard est finalizando um novo estudo, desta vez dando o remdio diretamente a pacientes, e publicar os resultados nos prximos meses. Pesquisadores da Universidade de Monash, na Austrlia, tambm esto testando o vorinostat e devem publicar resultados em breve. A equipe pioneira, de David Margolis, continua aperfeioando a tcnica  em estudos que envolveram cientistas da Universidade da Califrnia e uma pesquisadora da multinacional farmacutica Merck. Ainda h dvidas sobre o procedimento. Qual a dose ideal do medicamento? Por quanto tempo? Ele  o remdio ideal, ou surgiro outros? " como o AZT, que foi a primeira droga da sua classe (antirretroviral). Talvez a gente encontre drogas melhores, ou resultados melhores combinando essa droga com outras", diz Margolis. 
     Tambm h um dilema tico envolvido. Como convencer um paciente que toma antirretrovirais, e por isso est com o HIV sob controle, a participar de um estudo que envolve risco de acordar uma  doena letal? "Os mtodos que temos hoje so eficazes, relativamente seguros, bem tolerados e no to caros", afirma Daniel Kuritzkes, chefe do AIDS Clinical Trials Group (ACTG), um dos maiores grupos de pesquisa na rea. 
     Alm disso, um paciente curado pode ser facilmente reinfectado - basta fazer sexo sem proteo com algum que tenha HIV. O ideal mesmo seria criar uma vacina contra o vrus. Infelizmente, o vrus conseguiu burlar todos os esforos nesse sentido. H vrias razes que dificultam o desenvolvimento de uma vacina. A primeira  a intensa variabilidade do vrus. Embora o HIV seja dividido em somente dois tipos, 1 e 2 (que tm origem em primatas diferentes), ele sofre constantes mutaes dentro de cada tipo. Estima-se que a capacidade de mutao do HIV seja mil vezes maior que a do genoma humano. Isso torna o HIV imprevisvel e complica bastante as coisas. Como preparar o corpo para se defender se ningum sabe exatamente como o vrus pode se comportar? Mesmo assim, os esforos seguem: em maio, um novo teste de vacina foi anunciado por pesquisadores do Imperial College, de Londres, que faro um estudo em Ruanda e Nigria e divulgaro os resultados em 2015. 
     Mas, mesmo sem uma vacina, e com a tcnica de desinfeco ainda em testes iniciais, j existem pessoas que chegaram l - foram curadas do HIV.
     
OS PRIMEIROS CURADOS
     Em 1995, o americano Timothy Ray Brown descobriu que era soropositivo. Logo comeou a tomar os medicamentos antirretrovirais e estava indo bem, at que em 2007, quando estava morando na Alemanha, ele comeou a se sentir muito fraco. E descobriu que estava com leucemia, um cncer que ataca as clulas T (pois , justo elas). Seu mdico, o oncologista Gero Htter, se lembrou do seguinte: no norte da Europa, uma em cada cem pessoas  imune ao vrus da Aids. Devido a uma mutao gentica, elas no produzem uma protena chamada CCR5. E sem essa protena, o vrus da Aids no consegue entrar nas clulas. 
     Como Timothy estava com leucemia, teria de receber um transplante de medula ssea. Nesse tipo de transplante, o sistema imunolgico do paciente  morto (por meio de quimioterapia) e substitudo pelas clulas do doador. O mdico teve a ideia de usar, como doadora, uma pessoa que fosse imune ao vrus da Aids. Dessa forma, quem sabe, poderia acertar dois alvos com um s tiro: curar Timothy da leucemia e do HIV. 
     O primeiro transplante no teve o efeito esperado, e a leucemia voltou. Timothy aceitou se submeter a um segundo. Funcionou. Ele ficou um ano no hospital, teve vrias complicaes de sade, mas se tornou o primeiro humano na histria a ser curado do HIV. Parou de tomar os antirretrovirais, e o vrus nunca voltou. Timothy ficou conhecido como o "Paciente de Berlim". Em julho deste ano, dois casos semelhantes ao dele foram apresentados na conferncia da International Aids Society. Mas, nesses casos, os transplantes foram feitos h pouco tempo e ainda  cedo para dizer que o HIV no retornou. 
     Seja como for, transplante de medula  uma tcnica complexa, que depende de fatores muito especficos - o procedimento de Timothy tinha apenas 5% de chance de sucesso. "Esse paciente ganhou na loteria", afirma Caio Rosenthal, infectologista do hospital Emlio Ribas, de So Paulo. Alm de pouco eficaz, o procedimento  muito arriscado. "A pessoa que vai receber o transplante de medula fica completamente sem defesas [imunolgicas] durante um perodo", explica Dirceu Greco, diretor do departamento de DST e Aids do Ministrio da Sade. 
     Alm das pessoas que no produzem a protena CCR5, h outro tipo de gente resistente ao HIV: os chamados controladores de elite. Eles so infectados  pelo vrus, mas no desenvolvem Aids. "De todas as pessoas infectadas, 5% so chamados progressores lentos. Eles tm carga viral baixa e s vo ficar doentes muitos anos depois. E, dentro desses 5%, h tambm uma porcentagem de controladores de elite, que apresentam carga viral h mais de dez anos e conseguem viver sem remdios", explica Breno Riegel, infectologista do Hospital Conceio, de Porto Alegre, e colaborador de estudos internacionais  incluindo uma pesquisa com antirretrovirais que foi considerada a mais importante do mundo em 2011 pelo jornal cientfico Science. 
     Para ser um controlador de elite, ou uma pessoa imune ao HIV,  preciso nascer com determinadas mutaes genticas. Mas tambm existe gente que se torna controladora de elite. Em maro deste ano, pesquisadores do Instituto Pasteur, de Paris, apresentaram um estudo demonstrando a cura funcional de 14 pacientes franceses portadores do HIV. A palavra funcional significa que eles ainda carregam o vrus, mas no desenvolvem a Aids  mesmo tendo parado de tomar medicamentos antirretrovirais. Esses pacientes so identificados pela sigla Visconti, que vem de Viro-immunological Sustained Control After Treatment Interruption (Controle Viroimunolgico Sustentado Aps a Interrupo do Tratamento). O lder do estudo, Asier Sez-Cirin, destaca uma caracterstica importante desses pacientes. Quando se descobriram infectados pelo HIV, na dcada passada, eles logo passaram a tomar o coquetel antirretroviral. Comearam a tomar os remdios no mximo 70 dias depois da contaminao. E essa rapidez ajudou muito. "Tratando desde cedo, voc limita a entrada de vrus nos reservatrios (as clulas T inativas)", diz Sez-Cirin. E isso teoricamente permite que, depois de alguns anos tomando o remdio, seja possvel parar com ele  e mesmo assim no desenvolver Aids. Na prtica, as coisas costumam ser diferentes. "Quando a pessoa chega ao mdico, na maioria das vezes ela j est soropositiva h anos, e da o tratamento j no  mais to eficiente", explica Rosenthal. Um paciente que carrega o vrus h dez anos, por exemplo, j est com danos graves ao sistema imunolgico. 
     Os pacientes do grupo Visconti tomaram os remdios durante trs anos at que interromperam o tratamento. Eles conseguiram se manter saudveis mesmo sem os antirretrovirais e esto assim h cerca de sete anos. Um deles est h uma dcada sem a medicao. Sez-Cirin se refere a essa cura como "estado de remisso do vrus"  pois o HIV continua presente no corpo, ainda que no provoque o desenvolvimento da Aids. "Quando vimos os resultados, percebemos que isso pode ser um grande passo para a luta contra o HIV. Ficamos muito emocionados. Queremos reforar a mensagem de que o tratamento precoce  importante", diz Sez-Cirin. 
     O tratamento precoce foi responsvel por um caso ainda mais impressionante. Em maro deste ano, cientistas americanos revelaram que um beb (que no teve o nome nem o sexo divulgados) havia sido curado do HIV. Se uma grvida sabe que tem o vrus da Aids e recebe tratamento adequado, com medicamentos antiretrovirais, h 96% de chance de que o beb nasa sem o vrus. Mas, neste caso, no foi assim. A me da criana, que no havia recebido atendimento pr-natal, chegou ao hospital j em trabalho de parto. Um teste feito na hora detectou que ela tinha HIV. Era tarde demais para tratar a me e impedir que transmitisse a doena para o filho. Ento os mdicos fizeram o parto e levaram o recm-nascido para a pediatra Hanna Gay, da Universidade do Mississipi. Ela decidiu tratar o beb com altas doses de antiretrovirais, que foram mantidos durante os primeiros 18 meses da vida da criana. A partir da, a me sumiu e no veio mais pegar os rmdios. Ela ficou dez meses sem aparecer, e o beb no recebeu nenhum tratamento durante esse perodo. O que era um caso de relapso materno acabou resultando numa descoberta cientfica incrvel: mesmo sem nenhum remdio, o HIV no retornou. No havia mais vrus no sangue da criana. Aparentemente, o tratamento ultraprecoce evitou que o HIV entrasse nos reservatrios (mesma coisa que teria acontecido com os pacientes franceses). 

REENGENHARIA GENTICA 
     A expulso do vrus, o tratamento ultraprecoce, as vacinas e os transplantes no so as nicas frentes de pesquisa contra o HIV. Existe mais uma, que consegue ser ainda mais ousada: modificar geneticamente o corpo humano para torn-lo resistente ao vrus. A tcnica foi idealizada em 2008 e est sendo desenvolvida pela Universidade do Sul da Califrnia em parceria com a empresa de biotecnologia Sangamo BioSciences. Primeiro, obtm-se uma amostra de clulas T do paciente (coletando um pouco de sangue). Em seguida, usando tcnicas de manipulao gentica, essas clulas so alteradas. Elas passam a produzir uma verso deficiente da protena CCR5   aquela protena essencial para o vrus da Aids. As clulas geneticamente modificadas so reinjetadas na pessoa, se multiplicam e aos poucos vo substituindo as clulas T normais. E o paciente adquire imunidade ao HIV. Essa  a ideia. 
     A tcnica j foi testada em algumas pessoas. A mais famosa delas  um homem, identificado apenas como "Paciente de Trenton" (o nome vem da cidade onde mora, em Nova Jersey). Ele recebeu as clulas modificadas e parou de tomar os medicamentos anti-HIV. Num primeiro momento, a quantidade de vrus em seu sangue disparou. Mas em seguida despencou, at zerar. O HIV sumiu. "Eu me senti um super-homem", disse o paciente ao jornal New York Times. O resultado  animador, mas ainda no pode ser considerado cura. O estudo durou pouqussimo tempo, apenas trs meses (depois disso, o homem voltou a tomar os antirretrovirais, de forma preventiva). Seria preciso esperar mais para assegurar que o vrus no iria voltar. Alm disso, o Paciente de Trenton possua uma mutao gentica que debilitava um pouco a protena CCR5. Ele no era imune ao HIV, mas essa mutao pode ter aumentado a eficcia do tratamento  que no funcionou to bem com os outros pacientes. H um novo teste em curso, com nove soropositivos, e os resultados sero publicados at o final do ano. 
     H um detalhe especialmente intrigante. No Paciente de Trenton, apenas 13,5% das clulas T adquiriram resistncia ao vrus durante o estudo. Todas as demais continuaram vulnerveis. Mas essa mudana, modesta, j foi suficiente para que o organismo virasse o jogo contra o HIV e o eliminasse completamente do sangue. Talvez seja possvel estender os limites do corpo humano - e, com uma pequena ajuda, torn-lo capaz de vencer a Aids. Talvez as drogas que expulsam o vrus de seus reservatrios funcionem cada vez melhor, e se tornem lugar-comum daqui a alguns anos. Talvez os tratamentos ultraprecoces livrem milhes de pessoas do vrus. Mas notcias promissoras no significam que devamos baixar aguarda. Pelo contrrio. A preveno e o sexo seguro (com camisinha) continuam sendo essenciais. Para de fato vencer a Aids, a humanidade ter de apelar para as armas mais poderosas que existem: a inteligncia e o bom senso. Afinal, se o vrus pode evoluir, ns tambm.

A INFECO  E O CAMINHO DA CURA
O segredo est em acordar clulas dormentes, onde o HIV fica escondido.
1. CONTAMINAO  O HIV entra no organismo. Ele se instala nas clulas T, que so responsveis por coordenar a ao do sistema imunolgico. H dois tipos de clula T: ativa e inativa. O vrus invade a,bos os tipos.

2. INVASO DO DNA  O HIV entra na  clula e se infiltra no ncleo dela, onde est o DNA. As clulas ativas se multiplicam - e, com isso, multiplicam o HIV. As clulas inativas no se multiplicam. Graas  ao de uma enzima, elas ficam dormentes (e o vrus tambm)

3. O TRATAMENTO TRADICIONAL  Os medicamentos antirretrovirais, usados hoje, conseguem bloquear a progresso do HIV  e controlar a Aids. Mas no agem nas clulas inativas, onde o vrus fica escondido. Se a pessoas parar de tomar os antirretrovirais, o HIV escondido acorda. E a Aids volta.

4. A NOVA TTICA  Um novo tipo de medicamento  capaz de fazer as clulas inativas acordarem: e botarem para fora o HIV que trazem escondido. O vrus  jogado na corrente sangunea.

5. A ELIMINAO  Os antirretrovirais agem sobre o HIV, permitindo que ele seja eliminado. Os reservatrios vo sendo esvaziados, at no restar mais vrus.

 LONGA HISTRIA DA AIDS NA TERRA
1959 - Surgem os primeiros registros de homens morrendo devido a infeces de origem inexplicvel. Um deles, que morreu no Congo, teve tecidos do seu corpo preservados e analisados nos anos 90. Eles continham HIV.
1981 - O governo dos EUA publica um relatrio descrevendo os casos de cinco homens homossexuais de Los Angeles, que tinham uma srie de infeces raras.  o primeiro registro oficial da doena. Duas das vtimas morreram antes mesmo da publicao do artigo.
1983 - Em abril, o Center for Disease Contral (CDC), dos EUA, estima que dezenas de milhares de pessoas estejam infectadas pela doena. Ela ganha o nome de Aids (sndrome de imunodeficincia adquirida, em ingls).
1984 - O pesquisador Robert Gallo, do Instituto Nacional do Cncer dos EUA, afirma que a Aids  causada por um vrus. 
1985 - O ator americano Rock Hudson morre de Aids.  a primeira grande celebridade a ser vitimada pela doena, que j tem casos em todo o planeta.
1986 - O Comit Internacional de Taxonomia de Vrus batiza o causador da Aids de Human Immunodeficiency Virus (HIV), ou vrus da imunodeficincia humana.
1987 - O governo americano aprova o uso da zidovudina (AZT), primeiro medicamento a combater o HIV.
1989 - Magro e abatido, o cantor Cazuza anuncia publicamente que est com Aids. Morreria em 1990 depois de uma agonia que exps a fragilidade das vitimas. 
1991 - O lao vermelho se torna o smbolo da luta contra a Aids. Magic Johnson, estrela do basquete dos EUA, anuncia que  soropositivo. O cantor Freddie Mercury, do Queen, morre vtima da doena.
1993 - O filme Filadlfia, em que Tom Hanks interpreta um advogado com HIV, chega aos cinemas. O bailarino Rudolf Nureyev e o tenista Arthur Ashe morrem de Aids.
1994 - A epidemia atinge 1 milho de casos no mundo.
1995 - Surge a terapia antirretroviral altamente ativa (highly active antiretroviral therapy - HAART), um coquetel de drogas que impede a progresso do HIV.
1997 - O nmero de pessoas infectadas chega a 30 milhes no mundo.
2000 - A busca por uma vacina se torna prioridade global na pesquisa contra o HIV.
2003 - Cientistas comprovam que o HIV veio dos chimpanzs. O laboratrio VaxGen, um dos que desenvolve vacinas, anuncia que os testes em humanos falharam.
2007 - Mdicos anunciam que um paciente est livre do HIV. Timothy Brown, conhecido como Paciente de Berlim, no registra a presena do vrus no corpo desde ento.
2009 a 2013 - So publicados os primeiros estudos sobre eliminao de reservatrios do HIV, apontando um caminho para a cura. A busca por vacinas continua.

VEJA QUEM J EST VENCENDO A DOENA  E COMO
TERAPIA ATUAL 
COMO ? O portador de HIV recebe uma combinao de medicamentos (o chamado coquetel de antirretrovirais) que impede a multiplicao do vrus. A quantidade de HIV no sangue despenca, chegando a nveis muito baixos. 
A PESSOA DESENVOLVE AIDS? No. 
PODE TRANSMITIR O VRUS? Sim. O HIV permanece escondido no organismo.

TERAPIA DE PRXIMA GERAO
COMO ? O portador de HIV recebe um medicamento que acorda as clulas onde o vrus estava escondido. Em seguida, toma o coquetel de antirretrovirais  que impedem a multiplicao do HIV. Com o tempo, isso pode levar  eliminao total do vrus do organismo.
PODE TRANSMITIR O VRUS? Em tese, no. Mas a tcnica ainda est em fase experimental.

GENETICAMENTE IMUNE
COMO ? Existem pessoas que nascem com uma mutao na protena CCR5 - e isso impede o HIV
PODE TRANSMITIR O VRUS? H controvrsias. Embora o HIV no consiga se multiplicar,  possvel que algumas cpias dele se instalem no organismo  o suficiente para infectar algum.

SUPERCONTROLADOR
COMO ?  uma pessoa cujo sistema imunolgico consegue controlar o HIV, mesmo sem a ajuda de remdios. Ainda no se sabe o que torna uma pessoa controladora de elite.  o caso dos pacientes franceses do grupo Visconti.
PODE TRANSMITIR O VRUS? Sim.

BEB DE MISSISSIPI
COMO ? O filho de uma mulher HIV-positiva comeou a receber o coquetel de antirretrovirais logo aps o nascimento. O vrus sumiu.
PODE TRANSMITIR O VRUS? Em tese, no. O beb est aparentemente curado, com carga viral indetectvel.

PACIENTE DE BERLIM
COMO ? Recebeu um transplante de medula ssea de um paciente que tinha CCR5 mutante, ou seja, era imune ao HIV. Com isso, ele tambm adquiriu imunidade ao vrus.
PODE TRANSMITIR O VRUS? Em tese, no. O HIV desapareceu do organismo.

O PLACAR DO JOGO
Nmeros da epidemia que mudou o mundo
26% da populao na Suazilndia tem o vrus.  o pas com maior incidncia de contaminao.
Em Bangladesh, menos de 0,1% da populao est infectada.  a menor proporo.
Mais de metade dos infectados so mulheres, mas o problema  muito pior no sul da frica, onde mulheres representam 58% dos infectados.
At 2015, o oramento estimado para combater a Aids no mundo inteiro  de US$24 bilhes anuais.
Somente nos EUA, foram gastos US$ 344 BILHES no combate  Aids desde 1981.
30 MILHES de pessoas j morreram de Aids
Cerca de 15 MILHES de pessoas tm acesso a tratamento com antirretrovirais.
Nas Maldivas, menos de 100 pessoas possuem o vrus.  o pas de menor incidncia.
Na frica do Sul, 5,6 MILHES de pessoas esto infectadas.  o lder mundial.
34 MILHES esto infectadas no mundo.

O AMERICANO TIMOTHY RAY BROWN, 47, RECEBEU UM TRANSPLANTE EXPERIMENTAL DE MEDULA SSEA - E, POR CONTA DISSO, SEU CORPO SE LIVROU DO VRUS HIV. AQUI, ELE CONTA COMO FOI O PROCESSO, E COMO VIVE HOJE EM DIA. 

O transplante, que voc recebeu em 2009, era um procedimento arriscado, que poderia levar  morte. Por que voc aceitou?
Quando os mdicos comearam a tentar me convencer, eu disse no, porque o vrus HIV estava em remisso (sob controle). Mas eu tive leucemia, e tive de fazer o transplante por causa dela. No fiz por causa da Aids; fiz por causa da leucemia.

E como voc se sentiu quando descobriu que estava curado do HIV?
Eu no acreditei muito, at que o Dr. (Gero) Htter publicou o caso no New England Journal of Medicine (em 2009). A eu pensei: ok, se outras pessoas acreditam que aconteceu, ento eu vou acreditar. Se cientistas estavam acreditando, ento era verdade. Me senti aliviado. Isso mudou a minha vida.

Voc se sente curado?
Eu definitivamente me sinto curado. Meu corpo foi analisado da cabea aos ps, fiz inmeros exames de sangue, e no h sinal do HIV no meu corpo.

Como  a sua rotina mdica?
Quando eu estava morando em So Francisco, ia ao mdico pelo menos uma vez por ms. Mas, desde que me mudei para Las Vegas (onde administra uma fundao de luta contra a Aids), s vou ao mdico se tiver necessidade. Mas eu continuo participando de estudos que possam ajudar mais pessoas a serem curadas.

PARA SABER MAIS
Administration of vorinostat disrupts HIV-1 latency in patients on antiretroviral therapy. D.M. Margolis e outros, Nature, 2012.
Histone Deacetylase Inhibitors for Purging HIV-1 from the Latent Reservoir. Thomas Rasmussen e outros, Molecular Medicine Journal, 2011.
Expression of Latent HIV Induced by the Potent HDAC Inhibitor Suberoylanilide Hydroxamic Acid. D.M. Margolis, Daria Hazuda e outros, Aids Research and Human Retroviruses, 2009.
Establishment of HIV-1 resistance in CD4+T cells by genome editing. Elena E. Perez e outros, Nature Biotechnology, 2008.


2. POLTICA  COMO ATRASAR UMA VOTAO FALANDO SEM PARAR
A senadora americana Wendy Davis enfrentou uma verdadeira prova de resistncia para derrubar um projeto de lei que dificultava o aborto no seu Estado: ela ficou quase 11 horas discursando de p e sem beber gua ou ir ao banheiro.
 INFOGRFICO / Cristine Kist, Ricardo Davino e Vincius Matsuei

Wendy Davis chamou ateno do mundo todo no final de junho ao se aproveitar de uma brecha na legislao do Senado americano, conhecida como "obstruo" (veja box), para adiar a votao de um projeto de lei que implicaria o fechamento de 37 das 42 clnicas de aborto do Estado do Texas - nos EUA, o aborto  legal desde os anos 70. O projeto s poderia ser votado at a meia-noite, ou perderia a validade. Como a maioria republicana era a favor, o nico jeito de impedir a aprovao era falar sem parar at que o prazo se esgotasse. E Wendy quase conseguiu. Foi interrompida depois de mais de 10 horas por ter violado as regras da obstruo. Mas a as pessoas que assistiam ao seu discurso nas galerias do Senado gritaram to alto que ficou impossvel concluir a votao no prazo. Poucas semanas depois, o mesmo projeto foi ressuscitado e aprovado. Mesmo assim, quem realmente saiu ganhando foi Wendy Davis, que, em 11 horas, passou de semidesconhecida a celebridade.

AS REGRAS
A obstruo  um recurso utilizado pelos senadores americanos para atrasar a votao de um determinado projeto de lei. Enquanto falam, eles ficam proibidos de:
COMER OU BEBER
FALAR SOBRE QUALQUER COISA QUE NO SEJA DIRETAMENTE RELACIONADA AO TEMA
SENTAR OU SE APOIAR SOBRE A MESA
IR AO BANHEIRO
Toda vez que quebra uma das regras, o senador recebe uma advertncia. Na terceira advertncia, a obstruo  encerrada.

11h18 INCIO - Wendy comea seu discurso. 
Enquanto ela relembra o contexto poltico da votao, o senador republicano Jeff Leach alfineta no Twiter:
Discurso de Wendy: O objetivo desse projeto no  garantir a sade das mulheres, mas forar o fechamento de vrias clnicas em todo o estado do Texas.
Comentrio de republicano:  coincidncia que alguns bebs estejam chorando nas galerias durante a obstruo de Wendy Davis? Eu acho que no.

11h46 L cartas de associaes da rea da sade.
Discurso de Wendy: A percepo fetal de dor  improvvel antes do terceiro trimestre de gravidez.
12h53 L depoimentos de mulheres contrrias ao aborto.
Discurso de Wendy: "Uma em cada trs mulheres nos EUA j fizeram ou faro um aborto, e no faro isso devido  inconvenincia ou simples desdm pela vida humana".
13h46 Comea a sentir as costas
14h08 Se emociona ao ler um depoimento
15h19 Sente as costas mais uma vez
16h24 Responde perguntas de outros senadores. Um deles  Bob Deuell, mdico e republicano:
Comentrio de republicano: Talvez a maioria dos abortos no precise de todo o aparato de um centro cirrgico. Mas e aquela uma mulher que precisar?  uma vida sendo salva."
Discurso de Wendy: Entendo seu ponto, mas muitas mulheres vo deixar de ter acesso a qualquer cuidado mdico em consequncia dessa lei."
16h25 Volta a ler depoimentos
17h02 L um artigo sobre planejamento familiar.
17h10 Na wikipedia algum altera a ocupao dela para o LeBron James da obstruo.
17h30 Republicanos questionam se planejamento familiar diz respeito ao tema e pedem uma advertncia.
17h33 Primeira advertncia  O presidente da casa concorda que o artigo no dizia respeito ao projeto de lei.
17h37 Wendy responde s perguntas do colega democrata Kirk Watson. Watson fala o maior tempo possvel para que ela possa descansar.
18:36 Democratas tentam ganhar tempo
18h39 Um colega ajuda Wendy a ajustar uma cinta para as costas. Republicanos pedem outra advertncia.
19h27 Segunda advertncia  A senadora no poderia ter recebido ajuda de outra pessoa.
19h36 Ela fala sobre o trecho da lei que torna quase impossvel conseguir um aborto depois de 20 semanas da gravidez.
Discurso de Wendy: "Me pergunto o que o jri consideraria um prejuzo irreversvel  mulher a ponto de autorizar o aborto."
20h40 O presidente Barack Obama d seu apoio pelo Twitter: "Uma coisa especial est acontecendo em Austin esta noite. #standwithwendy".
20h48 YouTube Mais de 180 mil pessoas assistiam ao discurso ao vivo no YouTube.
21h03 Ela volta a comentar a dificuldade de conseguir um aborto depois das 20 semanas de gravidez.
21h33 Relembra um antigo projeto de lei que tratava de ultrassonografias.
21h35  interrompida por uma republicana que questiona se as ultrassonografias dizem respeito  discusso e pede uma advertncia. Mais discusso.
22h04 Terceira advertncia  A obstruo  encerrada. Os senadores consideram que o projeto das ultrassonografias no diz respeito ao tema.
23h45 at 00h01 As milhares de pessoas que estavam nas galerias do Senado protestam gritando "Deixem ela falar". O barulho  tanto que os senadores mal ouvem uns aos outros. Os gritos continuam at a meia-noite, quando o prazo termina.
TOTAL 12 horas e 43 minutos

WENDY DAVIS NO TWITTER
1 mil seguidores  quando comeou o discurso
40 mil  quando acabou
130 mil  duas semanas depois

RECORDES
547 mil tweets com a hashtag #standwithwendy (algo como "fique de p com a Wendy") foram registrados durante a obstruo.
43 horas foi quanto durou a obstruo mais longa da histria. O autor foi o senador Bill Meier, que discursou contra um projeto que dificultava o acesso pblico aos relatrios do Conselho de Acidentes Industriais em 1977. Na poca, as regras eram menos rigorosas.
100% foi o crescimento em poucas horas no nmero de visualizaes da pgina do tnis que Wendy usou durante a obstruo.


3. CINCIA  ENXAMES DE GENTE
OS PROTESTOS DE JUNHO FORAM O COMEO DE UMA NOVA ERA NA HISTRIA DA HUMANIDADE. E UMA CINCIA QUE ACABOU DE NASCER EXPLICA PORQU.
TEXTO / Alexandre Versignassi

     Um lder de punhos cerrados, discurso inflamado, berrando para uma multido. Essa era a imagem definidora de qualquer movimento popular. Agora no: "Os protestos parecem sem liderana, fora de controle  um enxame de pequenas causas sem nenhum princpio organizacional", escreveu o americano Steven Johnson, um escritor especializado em movimentos sociais. Sim, a essa altura voc sabe disso de cor e salteado. O que voc talvez no saiba  que Johnson no est falando aqui sobre os protestos do Brasil. Nem sobre os da Turquia, o Occupy Wall Street ou a Primavera rabe. Ele escreveu isso h 14 anos. Em 1999, a Organizao Mundial de Comrcio estava organizando uma srie de conferncias em Seattle. E as pessoas foram para a rua protestar contra a OMC, sem que houvesse lderes ou partidos polticos por trs da coisa. Nem uma causa propriamente dita. "Eram pequenos grupos de afinidade representando causas especficas  anarquistas, ambientalistas, sindicatos". A nica coisa que unia esses grupos era a ideia de que o comrcio global criava mais problemas do que solues. A ver: para os sindicatos, as multinacionais tiravam empregos dos EUA ao transferir fbricas para outros pases, a fim de gastar menos com salrios. Para os ambientalistas, elas poluam. Motivaes bem diferentes. Igual o que est acontecendo agora. 
     Quem tomou praticamente todas as grandes cidades do Brasil no tinha uma cartilha unificada de reivindicaes. Mas, braos dados ou no, os manifestantes eram todos iguais no que realmente contava: tinham ido para a rua a fim de serem vistos e ouvidos. E, mais importante, no estavam seguindo ordens de lderes. Era cada um por si e a multido por todos. 
     Essa  a grande novidade por trs de tudo o que est acontecendo agora. Pela primeira vez, os figurantes so os protagonistas dos movimentos sociais. No h lderes. Nem ideologias predominantes. Tudo isso  to recente que quem explica o fenmeno  uma cincia nova, que mal saiu das fraldas. Uma cincia multidisciplinar que comeou no com um fsico, um matemtico ou um bilogo. Mas com um humorista. 
     Um humorista hngaro: Frigyes Karinthy. Frigyes era um escritor de contos engraados, da dcada de 1920, e que hoje seria diagnosticado com Transtorno de Dficit de Ateno (sempre esquecia dos compromissos e tinha problemas srios com prazos). Mas at que era produtivo: em seu 46 livro, uma coleo de 52 contos, tinha um particularmente original. Chamava Correntes, e dizia o seguinte: "Para mostrar que as pessoas de hoje esto mais prximas do que nunca umas das outras, um dos caras da turma sugeriu um teste. Apostou que qualquer um dos 1,5 bilho de habitantes da Terra [era 1929] estava ligado a ele por uma distncia de, no mximo, cinco indivduos". Ento o personagem imagina um operrio da Ford e tenta ver qual  a conexo entre ele prprio, um sujeito de Budapeste, e o trabalhador braal de Detroit, a meio mundo dali: "Esse operrio conhece o diretor da fbrica dele.  um fato. Esse diretor provavelmente conhece o Henry Ford. O Ford  amigo do presidente da Hearst, a editora de jornais. E o presidente da Hearst, no ano passado, conheceu o rpad Psztor, que  muito amigo meu!". Pronto: cinco "graus de separao" entre o personagem do caf em Budapeste e o operrio da Ford. 
     Esse  o primeiro registro escrito daquilo que voc provavelmente conhece como "seis graus de separao". E voc conhece como "seis graus", e no "cinco", por causa de um psiclogo de Harvard, Stanley Milgram. 
     Milgram era filho de hngaros. E os livros humorsticos de Frigyes eram to populares na Hungria do comeo do sculo 20 quanto os vdeos do Porta dos Fundos so no Brasil do sculo 21. Talvez Milgram tenha ouvido sobre o conto em algum almoo de domingo quando era pequeno. Talvez a ideia dos "graus de separao" j fosse conhecida na Hungria antes do livro  os jogos mentais, afinal, so para os hngaros mais ou menos o que o samba  para ns: uma questo de identidade nacional (tanto que eles inventaram o cubo mgico...). 
     De um jeito ou de outro, a ideia chegou at Milgram. E em 1967 ele fez um experimento para testar quantos "graus de separao" haveria entre duas pessoas que no se conhecem. Assim: mandou para 160 pessoas pelo correio a foto de um amigo dele, que era corretor da bolsa em Boston. Essas 160 pessoas viviam em Omaha, Nebraska  que fica a 1.500 quilmetros da capital do Massachusetts. Junto com a foto, ia o nome e o endereo do tal corretor mais as instrues do teste: quem recebesse a carta e conhecesse pessoalmente o sujeito deveria mandar a carta para ele. 
     Quem no reconhecesse o amigo de Milgram (na prtica, todo mundo), deveria mandar a carta para algum amigo que talvez soubesse quem fosse o cara  um conhecido de Boston, por exemplo. O senso comum diz que um teste desses s podia dar em gua. Os colegas de Milgram tambm. Mas em questo de dias chegou a primeira carta para o corretor, vinda de algum que ele realmente conhecia. A correspondncia tinha passado s por dois intermedirios. Ou seja: algum de Omaha que recebeu a carta conhecia algum que conhecida algum que conhecia o cara de Boston. E chegaram mais cartas. E mais cartas. . . No final, 42 das 160 alcanaram o amigo de Milgram por essa via. E o nmero mdio de graus de separao foi de 5,5. Basicamente o que Frigyes tinha imaginado. Uau. 
     Milgram arredondou o nmero para seis. E a coisa entrou para o folclore moderno como "seis graus de separao". O psiclogo de Harvard, diga-se, nunca usou a expresso "graus de separao". Esse foi o ttulo de uma pea da Broadway dos anos 90, inspirada pelo estudo de Harvard. A pea, depois, inspirou uma piada. Em 1994, um grupo de estudantes mandou uma carta para o programa de TV do comediante americano Jon Stewart dizendo que "qualquer pessoa no mundo est a no mximo seis graus de separao de Kevin Bacon".  que Bacon teria feito tantos filmes que fatalmente trabalhou com muita gente. Ento qualquer um conheceria algum que conhece algum (...) que trabalhou com ele. A piada era ok, mas cientificamente imprecisa: a concluso de Milgram l atrs era que a regra valia para qualquer pessoa, claro; no s para o ator de Footloose. Mas foi desse jeito, ilustrada pelo ator da segunda diviso de Hollywood, que o meme ganhou o mundo. O mais importante ali, porm, era outra coisa: a ideia dos seis graus de separao mostrava que os seres humanos, de alguma forma, esto conectados em rede. 
     Foi o que um matemtico da Universidade Cornell percebeu quando ouviu sobre os "graus de separao", numa conversa casual com o pai, no final dos anos 90  no por coincidncia, bem quando o meme Kevin Bacon estava se espalhando. Duncan imaginou que o conceito por trs dos seis graus de separao poderia trazer a chave para um mistrio que ele tentava decifrar havia anos: a sincronicidade entre insetos. 
     O assunto  mais legal do que parece, voc vai ver. 
     Para entender de que tipo de "sincronicidade" estamos falando aqui, pense num aplauso de multido no meio de um show. No num aplauso formal, que as pessoas do por educao quando a msica termina, mas num espontneo mesmo, tipo os que acontecem de vez em quando no meio da msica.  praticamente impossvel saber onde a coisa comeou. O que a multido percebe  que, de uma hora para outra, est todo mundo aplaudindo. 
     Isso acontece com alguns vaga-lumes tambm. Uma espcie do sudeste da sia tem um ritual indiscernvel de mgica: grupos de milhes de vaga-lumes machos se renem em volta das rvores e, de uma hora para a outra, comeam a acender e apagar seus rabos exatamente ao mesmo tempo, numa sincronia perfeita. O enxame vira uma luz pulsante, visvel a quilmetros de distncia. Um flashmob artrpode. 
     Eles fazem isso para avisar as fmeas que esto ali (e com a corda toda!). A piscada em unssono funciona como um letreiro luminoso, que avisa onde  a balada do acasalamento. A natureza est cheia de exemplos parecidos: as sardinhas tentam enganar os predadores formando cardumes to densos e sincronizados que, para um tubaro desavisado, a coisa parece mais uma baleia. At o canto dos grupos de grilos parece seguir as ordens de um maestro. A natureza  terrivelmente sincronizada. 
     E, quando Duncan Watts ouviu do pai a histria dos seis graus, percebeu que ela podia ser til para explicar tudo isso. Ele sabia que a nica coisa que um vagalume ou uma sardinha tem noo na vida  o comportamento dos outros vaga-lumes e sardinhas imediatamente ao redor dele. "Se o meu vizinho acender o rabo, vou ligar o meu", pensaria o vaga-lume, se tivesse um crebro capaz disso. Ele no pensa, claro, s imita por instinto. 
     (Planto Darwin: os vaga-lumes que nasceram com esse instinto se reproduziram mais do que os vaga-lumes comuns, j que atraam mais fmeas com seu show de luzes involuntrio; e uma hora os insetos sincronizados tinham deixado tantos descendentes a mais que viraram a populao dominante por l. Essa  a explicao evolutiva). 
     Mas o que importa  o seguinte: Watts passou a entender que os vaga-lumes de uma ponta do enxame estavam a "poucos graus de separao" dos da outra ponta, a milhes de indivduos de distncia. Para um matemtico isso faz toda a diferena: mostra que os vaga-lumes funcionam em rede. 
     Numa rede, de computadores, por exemplo, cada uma das mquinas est indiretamente conectada a todas as outras mquinas do mundo. Isso fica bem visvel nas redes de torrents. Para quem no sabe: torrents so arquivos que as pessoas trocam pela internet  filmes, por exemplo, geralmente de forma ilegal. Se voc tem um filme no computador e joga ele numa rede de torrents, todas as pessoas do planeta que derem um comando para baixar o seu filme vo se conectar  sua mquina. O nome tcnico disso  rede peer-to-peer (de "par para par"). De par para par porque no existe uma central no meio do caminho.  um computador "falando" direto com o outro. 
     Bom, os enxames sincronizados de insetos so grandes redes peer-to-peer: a informao flui s "entre pares". No caso dos vaga-lumes, os vizinhos imediatos. Mas, como eles esto conectados em rede, a informao de quando acender e apagar a luz flui com uma rapidez extrema pelo enxame todo. Da a sincronicidade. Duncan demonstrou matematicamente esse tipo de fluxo (o que no  nada simples). E essa foi sua descoberta. 
     O matemtico gostou tanto dessa histria de redes que acabou deixando os insetos de lado e passou a estudar outro animal que de vez em quando forma enxames: os humanos. Nisso, acabou praticamente inaugurando um novo ramo da cincia: a chamada "nova cincia das redes". No podia haver poca mais propcia. Com o avano da internet, coisas que antes eram abstraes matemticas, como "pontos de rede" e "links" j tinham entrado para o lxico popular. E um enxame de cientistas passou a estudar redes  sejam as de computador, sejam as de seres humanos. 
     Mas as redes humanas tinham um problema: historicamente, nunca formamos grandes "inteligncias coletivas", como os vagalumes, grilos e sardinhas. Sempre precisamos de lderes. Se os lderes so absolutistas, nos organizamos naquilo que os cientistas dessa nova disciplina chamam de "redes centralizadas": ou todo mundo obedece um comando central, ou tem a cabea cortada. Caso da Coreia do Norte, para ficar num exemplo s. O resultado dessas redes  o comportamento padronizado. E o isolamento. Quem est numa rede extremamente centralizada nem tem contato com outras formas de pensar  tanto que, se meia dzia de norte-coreanos fugidos para o vizinho do sul resolvem abrir a boca para falar como viviam, vira livro (como o timo Nada a Invejar, de Barbara Demick) . Em suma: eles esto conectados em rede, mas  como se cada norte-coreano estivesse ligado s ao gordinho Kim Jong-un e s insanidades que ele prega. Outro tipo  rede  a mais convencional; a que tem vrios centros, e onde cada pessoa participa de mais de um. Se voc  skatista e advogado, j faz parte de duas redes, a de quem anda de skate e a da OAB, cada uma com seus lderes de ocasio. Se voc estuda na USP e  membro do Movimento Passe Livre (MPL), mesma coisa. A "rede de vrios centros", enfim,  basicamente a vida como a conhecemos. 
     Quer dizer... No. No  mais. 
     O que est acontecendo agora  o afloramento de uma nova rede: uma que une basicamente todo mundo. A internet, e, principalmente, as redes sociais, tornaram a disseminao de informao peer-to-peer, de pessoa para pessoa, to fugaz quanto a dos vaga-lumes baladeiros. Os graus de separao entre as pessoas dentro do Facebook, algo que pode ser medido automaticamente,  de 3,75. O mundo ficou menor  se algum amigo seu vai morar no exterior, continua participando da sua vida tanto quanto antes, via Whatsapp, Face, Instagram. 
     Isso acelerou o mundo. Aquele meme do Kevin Bacon chegou ao Brasil trs, quatro anos depois de ter aparecido na TV americana. Hoje, chegaria em 3 segundos. Uma ideia tambm no precisa mais "subir na hierarquia" de um sindicato ou de um partido poltico para chegar a todo mundo. Se ela for boa o bastante, vai alcanar milhes de mentes em questo de minutos.  por isso que hoje conseguimos formar "enxames" sem a intermediao de lderes. E os movimentos de junho so a prova emprica disso. 
     Havia, sim, vrias reivindicaes, de vrios grupos. E, claro, foi o MPL quem deu o pontap inicial. Mas o que unia as pessoas era outra coisa. "O que aconteceu no Brasil na semana de 17 de junho foi o maior enxameamento de pessoas de todos os tempos, pelo menos com a caracterstica que teve aqui", diz o fsico Augusto de Franco, um especialista na nova cincia de redes. Por "caracterstica", Augusto exemplifica: "No existia um objetivo comum, como no Egito, que era derrubar uma ditadura. O que havia era uma insatisfao geral e difusa contra o 'sistema'. S que para cada um o 'sistema' era uma coisa diferente". Em suma: o que levou as pessoas para a rua foi essa rede nova, hiperdescentralizada, e que dissemina os seus e os meus pensamentos  velocidade da luz. Pois . Se voc saiu para protestar, contra o que quer que seja, parabns. Voc participou no s de um momento mpar na histria do Pas. Foi protagonista do comeo de um novo captulo da histria da humanidade. O captulo que est sendo escrito agora. Na rua. 
     
PARA SABER MAIS
Linked - A Nova Cincia das Redes. Albert-Laszlo Barabasi, Fronteira do Conhecimento, 2009.
O Seis Graus de Separao. Duncan Watts, Leopard, 2009.


4. IDIAS  COMO AS IDEIAS SE ESPALHAM
Onde nascem as ideias? Para onde elas vo? Como se espalham para os quatro cantos do mundo? Para descobrir as respostas, a SUPER me mandou a 9.753 quilmetros da redao, na Esccia, para acompanhar o TEDGlobal. Fui para l fazer uma cobertura visual. O resultado  e os caminhos das ideias - voc v nas prximas pginas.
DESIGN E TEXTO / Rafael Quick, de Edimburgo

     A primeira vista, Edimburgo no parece uma cidade bvia para um evento que distribui ideias inovadoras, como o TED. A comear pela idade da cidade: foi fundada antes do sculo 7 d.C. Em toda parte, h castelos medievais projetados para batalhas, monumentos construdos para executar pessoas, mausolus com nomes de famlias antigas, de um tempo em que muitos no viviam alm dos 30 anos. Mas Edimburgo tambm  viva. Os parques, restaurantes e bares esto sempre cheios  sinal claro de que a cidade no parou no tempo. E a o TED volta a fazer sentido. Cheguei ao evento com a misso de assistir s 83 palestras de no mximo 15 minutos, espalhadas ao longo de quatro dias. E percebi que,  medida que as apresentaes passavam, ficava cada vez mais difcil se lembrar de uma s ideia  os conceitos iam se misturando. A surgiu a dvida: como as ideias sobrevivem assim, todas embaralhadas? S fui entender quando perguntei a Tim Leberecht, escritor e diretor da agncia frog, especializada em inovao, se ele ia aplicar alguns daqueles conceitos que tnhamos ouvido. "A melhor coisa de vir para o TED  que no precisamos fazer nada com o que vemos aqui. Ficar inspirado j  o suficiente, isso vale mais que qualquer coisa." Nesta pgina, voc entende como funciona a inspirao.
     Antes de ir ao TED, eu acreditava que as ideias se propagavam como ondas de rdio. O radialista d as notcias, as pessoas escutam e, quando o programa acaba, contam para seus amigos, que contam para a sua famlia, que contam para outros. Mas no  bem por a. Consegui ver na prtica como  mais complexo do que isso quando, nos intervalos das palestras, todos se juntavam no salo principal para conversar sobre o que tinham acabado de assistir. Conversei com uma sul-africana, Kate Groch, criadora da GWF, uma fundao que leva centros digitais para reas rurais da frica: "Me identifiquei com o que [o jornalista] George Monbiot disse. Assim como ele, no quero forar um mtodo de educao para as crianas, mas sim fornecer um ecossistema onde elas possam progredir naturalmente." O nico problema  que Monbiot no falou uma palavra sobre educao em sua palestra  falou sobre a reintroduo de animais na natureza. Percebi na hora que as ideias no eram transmitidas de forma linear. O que acontecia, na verdade, era um grande jogo de telefone-sem-fio. A ideia original, embora dita para muitas pessoas ao mesmo tempo, era interpretada de forma diferente por cada uma. E elas ento passavam adiante a sua verso da histria para os seus amigos, que tambm modificavam o que ouviam. Era uma ideia gerando muitas outras. O mesmo acontecia com todas as outras palestras. A verdade era mais incrvel do que eu imaginava. 

PARA SABER MAIS conferences.ted.com/TEDGlobal2013

O BERRIO DA CRIATIVIDADE
Boas ideias podem sair de todas as reas. Para difundi-las,  eficiente ter uma boa histria e emocionar a plateia.

O CREME DE LA CREME
Veja as palestras de maior destaque

GRGOIRE COURTINE (cincia e sade) - Mdico que estuda a recuperao de danos na espinha dorsal e conseguiu fazer ratos paraplgicos voltarem a andar. 

SUZANA HERCULANO-HOUZEL (cincia e sade) - nica brasileira do TED, a neurocientista descobriu um novo mtodo para contar os nossos neurnios. Resultado: temos 86 bilhes deles, 14 bilhes a menos do que achvamos. 

JOSEPH KIM (histrias pessoais) - Refugiado norte-coreano que descreveu como era viver em um pas assolado pela fome (que matou seu pai) e como conseguiu fugir de l.

RAFFAELLO DANDREA (tecnologia)  Desenvolve robs voadores programados com algoritmos. Eles so capazes de encontrar sozinhos solues para problemas. 

GREG ASNER (sustentabilidade) - Ecologista que desenvolveu um sistema para mapear cada rvore de uma floresta. Seu mtodo foi testado em uma regio da Amaznia.

ERIC X. LI (economia e poltica) - Cientista poltico chins que causou polmica ao defender o sistema poltico de seu pas. Criticou o conceito ocidental de democracia e saiu do palco ovacionado.

CHARMIAN GOOCH (economia e poltica) - Ativista que delata a corrupo e a violncia envolvidas na extrao de recursos naturais.  dela a principal investigao sobre diamantes de sangue.

TEMAS DAS IDEIAS
Cincia e sade
- Sonia Shah, histria da malria
- Russell Foster, uma nova viso
- Salvatore Iaconesi, dados mdicos abertos

Histrias pessoais
- Manal al-Sharif, direitos das mulheres rabes

Artes e cultura
- Anant Agarwal, educao superior online.
- Hetain Patel, identidade e autenticidade.

Economia e poltica
- Pico Iyer, o que  uma nao
- Trita Parsi, novas relaes no Oriente Mdio
- Michael Porter, empresas e sociedade

Sustentabilidade
- Steve Howard, mveis sustentveis

Tecnologia
- Bernie Krause, o som da natureza
- Lian Pin Koh, drome ambientais
- Andras Forgacs, biomateriais.
- Andreas Raptopoulos, uma nova web
- Eben Upton, programao para crianas

NINGUM  DE NINGUM
NO MUNDO DAS IDEIAS, VALE TUDO: ROUBAR, COPIAR, REPASSAR. CADA PESSOA INTERPRETA  E UTILIZA  OS CONCEITOS DA MANEIRA QUE QUISER. ENTENDA AQUI.

1- JOSEPH KIM
O refugiado norte-coreano deu a palestra de maior impacto emocional.
A esperana me manteve vivo

2- PICO IYER
Escritor especializado em viagens. Ele usa as diferenas culturais coletadas em suas jornadas para repensar a nossa relao com nossos lares, casas e pases.

3- DANIEL SUAREZ
 um programador que escreve livros de fico. Falou sobre o perigo dos drones (avies controlados por robs que so mandados para as guerras) e por que eles no deveriam ter o poder de decidir sobre a vida e a morte de pessoas.
Robs no devem possuir o poder da deciso de matar

4- GEORGE MONBIOT
Jornalista e zologo, que escreve sobre a importncia de restaurar ecossistemas - para os animais e a natureza, e para as nossas vidas.
A reintroduo dos lobos mudou o curso dos rios.

5- MANAL AL-SHARIF
 uma ativista da Arbia Saudita. Presa por dirigir em seu pas natal, luta para que as mulheres rabes possam ganhar a guarda de seus filhos e tenham mais proteo em caso de violncia - alm de dirigir,  claro.
As mulheres tm que dirigir rumo a sua liberdade

6- LIAN PIN KOH
Desenvolve avies que monitoram reservas ambientais ao redor do mundo.

INTERPRETAO E UTILIZAO DOS CONCEITOS
Hollie Carr  Fundadora da Rainmaker Foundation, uma instituio de caridade londrina.
Kelvin Hughes  Gerente de inovao da Unilever. Vi que precisamos de um pouco mais de coragem todos os dias. Temos de sair da zona de conforto.
Tim Leberecht  Escritor e diretor da agncia frog, especializada em inovao. Ficar inspirado j  o suficiente, isso vale mais que qualquer coisa.
Mika Kanaya  Jornalista do canal japons NHK.
Laura Brown  Coordenadora do Ruaha Carnivore Project, que preserva reservas para lees na Tanznia. "Abri eus olhos para outras causas importantes em que pretendo me engajar.
Yana Buhrer Tavanier  Ativista de direitos humanos da Bulgria.
Kate Groch  Criadora da Good Work Foundation, que leva centros digitais para reas rurais da frica. Embora ele tenha falado sobre vida selvagem, posso aplicar o mesmo conceito na minha empresa.
So-Young Kang  Fundadora do Aweken Group, uma agncia de publicidade de Cingapura
Chris Schaumann  Vice-presidente global da Nokia. Talvez eu pudesse ajudar a levar essas ideias para audincias ainda maiores.

DEPOIS DO FIM DO TED, AS IDEIAS DOS PALESTRANTES SO ESPALHADAS PELA INTERNET EM NMEROS IMPRESSIONANTES.
(NMEROS DAS DUAS PRIMEIRAS SEMANAS APS O TED)
1.111 pessoas no TED
16.020 tweets com #TEDGlobal
39.284 likes nos posts do Facebook
639.236 pessoas que entraram no blog do TED
684.228 pessoas que viram os tweets do TED
972.015 vezes em que os primeiros sete vdeos liberados online foram assistidos


5. CIDADES  AS LIES DE BOGOT
O que uma cidade com os mesmos problemas que os nossos pode nos ensinar sobre urbanismo, cidadania, transporte coletivo  e tambm sobre decises erradas
REPORTAGEM E EDIO / Karin Hueck, de Bogot

     Pedro sobrevive de bicicleta. Sua relao com o equipamento tem mais de 50 anos. Ele aprendeu a se equilibrar sobre duas rodas ainda na infncia, subindo e descendo as cordilheiras de 3 mil metros que cercam sua cidade natal. Na juventude, Pedro participava de corridas no clube esportivo e acordava todos os dias s duas da manh para treinar. Quando a idade bateu, teve de largar o esporte - mas no a bicicleta. Aos 59 anos, sua relao com ela continua mais forte do que nunca. Todos os dias, segue acordando cedo para ir trabalhar: cruza regies arborizadas, atravessa parques e avenidas largas, cai na ciclovia de 376 km da cidade, e ergue uma tenda de pano  beira de uma via. L,  funcionrio autorizado da prefeitura para consertar bicicletas - de domingo, quando o movimento  mais intenso, arruma at cem por dia. Pedro no pega trnsito e no anda de carro. Tem a rotina tranquila, como a de um habitante de alguma capital europeia - vamos dizer, Zurique: ao p da montanha, andando de bicicleta. Mas Pedro Mejia no mora na Sua - ele  bogotano, da capital da Colmbia.  
     Comparar Bogot com a Europa no  exagero s meu. Nos anos 2000, houve muita gente que fez a comparao. Quem anda pelos bairros mais ricos da cidade tem mesmo essa impresso: o clima  montanhs, os prdios so baixos e padronizados, os muitos parques e ciclovias esto sempre cheios. (J os bairros pobres esto mais para o continente ao sul da Europa: as ruas no tm asfalto nem saneamento - e quase um milho de bogotanos vivem com menos de US$ 100 ao ms.) Por um bom tempo, a cidade parecia estar no caminho certo e comeou a ser citada pelos vizinhos como exemplo de lugar cheio de problemas que conseguiu se reinventar. As ciclovias foram s o comeo - surgiram ainda no final da dcada de 1980 e se espalharam at as periferias. Depois vieram uma reforma no sistema de nibus, copiado de Curitiba, campanhas de cidadania para educar os habitantes, construes de parques e bibliotecas, e programas de combate  pobreza. Bogot prometia ser a Amsterd dos Andes.
     
CHEIA DE BOAS IDEIAS
     Com 7,3 milhes de habitantes, em meio a um pas que desde os anos 50 vive amedrontado pela violncia do trfico e das guerrilhas, a capital da Colmbia no seria um lugar bvio para uma reforma urbanstica to expressiva. O que aconteceu por l foi o que a populao brasileira comeou a pedir nas ruas nos ltimos meses: medidas polticas que melhorem a vida dos cidados - e no a dos prprios polticos. A cidade colombiana teve dois prefeitos decisivos para isso. O primeiro foi Antanas Mockus, um filsofo e ex-reitor da Universidade Nacional da Colmbia, que entrou no jogo poltico depois de ficar famoso por mostrar o traseiro para dois mil estudantes que o vaiavam durante um discurso. Seu objetivo era educar a populao. Contratou mmicos para ensinar os pedestres a atravessar a rua na faixa e distribuiu cartes vermelhos que podiam ser apontados para os motoristas que cometessem infraes. Ele mesmo se engajou: ia para as ruas vestido de super-homem para tirar o lixo das caladas e apareceu na TV tomando banho para ensinar economia de gua. Suas excentricidades deram certo: o trnsito melhorou e as mortes violentas caram em um tero. 
     J Enrique Pealosa, o segundo prefeito, foi por outro caminho: resolveu cuidar do espao pblico da cidade. Primeiro, declarou "guerra aos carros". Caou espao de estacionamento alegando que no  obrigao da prefeitura guardar o carro dos outros, construiu ciclovias onde no havia nem rua asfaltada  e investiu maciamente em transporte pblico. Para isso, construiu o Transmilenio, um sistema de nibus no qual os corredores do veculo funcionam como linhas de metro (entenda melhor no quadro). Mas Pealosa no teve muito tato: alm de deixar o estacionamento mais difcil, desalojou uma favela no centro da cidade e tentou desapropriar um Clube de Campo de elite para transform-lo em parque  ou seja, desagradou a classe mdia, os pobres e os ricos, indiscriminadamente. Cinco anos depois, Bogot estava mudada, mais civilizada e com menos trnsito  algo que faz qualquer cidade do mundo, inclusive as nossas, ter esperana de dias melhores.

DEGRINGOLOU?
     Viajei, ento, a Bogot para ver como andavam as coisas por l. Marquei duas entrevistas na prefeitura e resolvi pegar o Transmilenio para testar essa grande inveno do urbanismo mundial. "Mas pega antes das 16h  depois fica impossvel", ouvi de uma local. Entrei s 14h. Entrar no  bem a palavra. Parei j na escada e s fui encaminhada para o centro do nibus  medida que a massa de pessoas me empurrava. Viajei jogada por cima da mala de uma mulher. Vi uma idosa esmagada contra a porta. Do lado de fora da janela, o trnsito estava completamente parado. Quando sa no ponto final, quase fui atropelada por um dos "buses", os nibus normais de linha que abastecem o Transmilenio, e que no tm ponto marcado, nem rota fixa e que podem ser chamados por qualquer pessoa em qualquer lugar da cidade  inclusive nas faixas do meio de uma avenida larga. Algo deu errado na revoluo bogotana. 
     "O Transmilenio  vtima de seu prprio sucesso", diz Maria Victoria Duque, assessora de gabinete do atual prefeito, Gustavo Petro, na entrevista  qual fui de nibus. De fato, todas as linhas esto sempre cheias. Mas o motivo no  apenas o sucesso. Bogot  uma cidade cheia. Em 1993, tinha 5,4 milhes de habitantes. Hoje so 7,3 milhes: cresceu 35% em 20 anos. Culpa desse inchao  a violncia no campo, que desloca milhares de pessoas por ano para os grandes centros urbanos. "Se existe uma populao morando em alguma rea de interesse econmico no interior  como uma rota de trfico , a histria  sempre a mesma. Grupos paramilitares entram no vilarejo, matam todos os homens, e as mulheres acabam nas grandes cidades", diz Mercedes Castillo de Herrera, professora de economia e urbanismo da Universidade Nacional da Colmbia. Cerca de 5,2 milhes de colombianos so refugiados  o que corresponde a mais de 10% da populao. Seu destino favorito  a prspera e industrial Bogot. De fato, as periferias da cidade no param de crescer e os governos lutam para conseguir levar os servios bsicos  gua, luz, merenda escolar  para l. Diminuio do trnsito ficou em segundo plano. 
     Os outros fatores que contriburam para a situao que Bogot vive hoje so velhos conhecidos nossos. O primeiro  a falta de continuidade das prefeituras. "Somos latinos. A pior coisa para um homem latino  criar o filho de outro", disse  Mockus em uma entrevista ao New York Times. Cada novo prefeito que assumiu a cidade tratou de dar a ela uma marca "prpria"  um plano de governo caracterstico de seu mandato. Foram causas igualmente nobres, como a construo de escolas na periferia ou a distribuio de gua de graa nas reas mais pobres ou a viabilizao do metr (essas ltimas duas, bandeiras do atual prefeito). Mas nenhum tratou de continuar o servio que os anteriores fizeram. Hoje, os bogotanos voltaram a atravessar a rua em qualquer lugar, como antes de Mockus. "Todo mundo voltou a buzinar que nem maluco. Antes no era assim", diz Duque. E a rede do Transmilenio tambm no foi expandida muito alm do que j estava ao final do governo Pealosa. Para piorar, o ltimo prefeito, Samuel Moreno, foi acusado de corrupo e est preso. Todos esses contratempos acabaram gerando um clima de insatisfao na cidade que andava esperanosa com suas mudanas: desde outubro de 2010, os bogotanos tm a impresso de que a capital est piorando. Para ns, que acompanhamos de longe, restam alguns ensinamentos. A boa notcia  que d, sim, para mudar uma cidade  para melhor!  em pouco tempo, com boas e criativas decises polticas. A m  que  possvel perder o rumo em ritmo igualmente rpido. Ficam as lies para o futuro das nossas cidades. 

MELHORIAS 1.100 parques novos foram construdos durante o perodo de reurbanizao.
SOBREVIVEU BEM Sim.
MOTIVO Esto sempre cheios e bem cuidados

MELHORIAS Priorizar espaos pblicos nas periferias. Em alguns bairros, asfaltaram apenas reas de lazer e ciclovias, e deixaram os carros passando em ruas de terra.
SOBREVIVEU BEM Sim e no.
MOTIVO O crescimento descontrolado da cidade.

MELHORIAS Agua, luz e esgoto para os bairros mais pobres.
SOBREVIVEU BEM No.
MOTIVO Os servios esto correndo atrs do crescimento descontrolado da cidade por causa da violncia no campo.

MELHORIAS Bibliotecas construdas nos bairros pobres.
SOBREVIVEU BEM Sim.

MELHORIAS Ciclovias. So 367 km ao longo de toda a cidade, inclusive nas periferias.
SOBREVIVEU BEM Sim.


MELHORIA Transmilenio: nibus que andam apenas nas grandes avenidas, em vias separadas, com entrada pelo canteiro central, como num metr.
SOBREVIVEU BEM No. 
MOTIVO Os nibus esto sempre lotados

MELHORIA Rodzio de carros chamado "pico y placa", que probe 50% da frota de andar em horrios de pico e fez as viagens de carro carem 22%.
SOBREVIVEU BEM No.
MOTIVO Trnsito voltou com tudo.

MELHORIA Educao no trnsito. Mmicos nas ruas ensinavam pedestres a atravessar na faixa.
SOBREVIVEU BEM No.
MOTIVO Falta de continuidade nos projetos.

PARA SABER MAIS
Bogot Change
vimeo.com/25521307


6. ZOOM  CAMPEO MUNDIAL DE ESCONDE-ESCONDE
Conhea o artista que ficou invisvel para fazer seu trabalho aparecer. E depois divirta-se tentando encontr-lo nas prximas pginas.
FOTO / Liu Bolin
DESIGN / Ricardo Davino
REPORTAGEM E EDIO / Cristine Kist

Sorte sua que voc no foi colega do chins Liu Bolin no jardim de infncia. Se fosse e tivesse ingenuamente aceitado brincar de esconde-esconde com ele, provavelmente estaria procurando at hoje. Bolin decidiu se camuflar para demonstrar, da forma mais literal possvel, que o homem pode ser engolido pelo ambiente em que vive. "Um indivduo hoje est mais propenso a ser controlado ou mesmo incorporado ao seu ambiente, e o 'ambiente' aqui pode ser social, cultural, ecolgico, e assim por diante".

     Bolin comeou a se "esconder" em 2005, depois que o governo chins fechou sem mais nem menos a vila de artistas onde ele trabalhava. "A China est se desenvolvendo, e existem alguns problemas que acontecem nos pases em desenvolvimento que so aceitveis. As reflexes contidas no meu trabalho s tentam tornar a sociedade mais aberta e razovel", diz. Para deixar a provocao ao governo ainda mais clara, no incio s cenrios chineses tradicionais eram usados como pano de fundo. Mas a ele se deu conta de que o comportamento das pessoas era influenciado pelo ambiente em todos os lugares (no s naqueles que colocam artistas na rua), e decidiu levar sua mgica tambm para os Estados Unidos e a Europa. Acabou descobrindo que o problema no estava no ambiente, mas nas prprias pessoas: "O ambiente e tudo ao nosso redor vm do prprio ser humano, so algo que ns mesmos criamos".  
     As bancas de revista talvez sejam suas locaes preferidas. Ele j fotografou em bancas de Pequim ( esquerda), Paris e Nova York. Mas nem sempre a experincia foi agradvel: "Eu tenho fobia das ruas de Nova York, cobertas de moda e revistas de celebridades". Da prxima, a gente manda uma SUPER para ajudar. 
PARA SABER MAIS
Liu Bolin, Liu Bolin, Thircuir, 2012.


7. PAPO  CUTUCARAM A CONSTITUIO
Enquanto no Brasil manifestantes saram do Facebook e foram para a rua, na Islndia eles saram s ruas e depois voltaram para reescrever a Constituio no prprio Facebook. O cientista poltico islands Eirkur Bergmann conversou com a SUPER sobre o processo.
REPORTAGEM / Valquria Vita 

     At cinco anos atrs, a Islndia  que parecia estar deitada em bero esplndido; todo mundo sabia ler, 95% da populao tinha acesso  internet, a economia ia muito-bem-obrigado e no existia desemprego. S que durante a crise financeira que tomou conta do mundo em 2008, o pequeno pas nrdico (pequeno mesmo, 82 vezes menor que o Brasil) passou por uma barra to pesada que a situao chegou a ser descrita pelo FMI como uma "crise financeira de propores catastrficas". Os maiores bancos da regio faliram e a moeda local sofreu uma desvalorizao de 80% em relao ao euro. A taxa de desemprego aumentou nove vezes, a dvida do pas chegou a 900% do PIB e, bom, as pessoas comearam a empobrecer. 
     Os islandeses deram uma de argentinos e foram s ruas protestar batendo panelas quando o governo quis aplicar medidas exigidas pelo FMI em troca de uma ajuda financeira bilionria. Bateram tanta panela que o primeiro ministro foi obrigado a renunciar, e novas eleies foram convocadas. Mesmo assim, eles no ficaram satisfeitos. De repente, os protestos j no eram mais contra as medidas de austeridade, mas contra tudo que parecia errado no pas (parece familiar?). No caso da Islndia, o que o povo realmente queria era uma nova Constituio. Foi a que o Facebook entrou na jogada. 
     A rede social foi a principal plataforma escolhida pelos islandeses para recolher contribuies para a nova Constituio. O processo foi mediado por um conselho de 25 voluntrios apartidrios, que postava os textos no Facebook depois de cada reunio para que o resto da populao pudesse debater a respeito. E foi assim que a Islndia ficou conhecida mundialmente por ter elaborado a primeira Constituio crowdsourced da histria. O texto final passou por referendo e foi aprovado por dois teros dos islandeses em 2012. Est at agora aguardando aprovao do Parlamento (Brasil e Islndia tambm tm suas semelhanas), mas j serviu de exemplo para destacar a fora das redes sociais na construo de uma nova forma de democracia. 
     Um daqueles 25 conselheiros, o cientista poltico Eirkur Bergmann, diretor do Centro de Estudos Europeus da Bifrst University, enfrentou uma viagem de 24 horas da Islndia para o Brasil para fazer uma palestra sobre o futuro dos Estados democrticos. Aproveitou para falar sobre o uso da tecnologia pela democracia e para dar sua opinio sobre a viabilidade de um processo parecido por aqui.
     
Como vocs receberam sugestes para a nova Constituio?
Por alguma razo, todos na Islndia esto no Facebook, ento esse foi o principal portal. Criamos uma pgina onde as pessoas podiam mandar sugestes e comentar, e nos dividimos em comits para analisar os assuntos. As pessoas tambm mandaram sugestes pelo Twitter, e-mail, correspondncias, ligaram e vieram pessoalmente at ns. A deciso que tomamos foi que no importava de que maneira elas viriam, s queramos que participassem. Se quisessem mandar um pombo com uma mensagem, podiam fazer isso tambm. Recebemos 3.600 sugestes formais.

Como foi tomada a deciso de criar um canal no Facebook para que a populao se manifestasse?
Existiram muitos motivos para isso. Um foi que existia alguma animosidade entre o conselho eleito e o Parlamento, e sabamos que isso poderia ser uma estratgia para ter o apoio do pblico. E como ter o envolvimento do pblico? Botando no Facebook. Entre os 25 conselheiros representantes, houve quem dissesse que devamos desligar o celular, fechar a internet e apenas escrever o texto e trazer ao pblico quando estivesse completo. Mas decidimos fazer completamente o oposto. Nosso time tcnico cuidou de todas as portas de entrada de opinio. Invocamos toda a populao a participar. Postamos at nossos telefones particulares para as pessoas ligarem se quisessem. Postvamos todo o nosso trabalho online imediatamente para as pessoas debaterem. E desse debate tirvamos a vontade do pblico e integrvamos no prximo round de postagens.

E as pessoas levaram isso a srio?
Essa foi a parte maravilhosa disso. Normalmente, na Islndia, temos discusses acaloradas sobre tudo, as pessoas atacam as gargantas umas das outras nos comentrios, temos discursos muito negativos e comentrios muito duros e pessoais. O que as pessoas j postaram sobre mim, meu deus! E isso acontece com todo mundo. Mas, com esse assunto, por alguma razo, ningum fez comentrios negativos. A questo  que todos queriam causar impacto. Quando voc convida as pessoas, tem de escutar o que elas tm a dizer. E elas levaram a srio porque sabiam que o que dissessem tambm seria levado a srio. Deixamos claro para elas que seus comentrios realmente importavam, e como resultado tivemos comentrios muito mais responsveis. Quando voc d poder s pessoas, e diz a elas que suas vozes realmente importam, elas tomam mais cuidado com o que dizem. Eles sentiram que estavam participando de verdade, no apenas assistindo  recuperao da Islndia. Isso teve efeito de cura na sociedade. Foi um jeito construtivo de avanar, em vez de ficar nos protestos.

Se o povo no tivesse sido parte desse processo, voc acha que a Constituio teria sido diferente?
Sim. Por exemplo: captulos importantes sobre recursos naturais e direitos humanos sofreram grande impacto com a participao do pblico. Se a Constituio tivesse sido criada pelos parlamentares, teria sido mais conservadora.

O quanto a crise econmica que afetou a Islndia influenciou esse movimento?
Em 2008, a Islndia foi a primeira a entrar em colapso. Nossos bancos foram  falncia em apenas uma semana. Isso foi um choque e houve um grande senso de crise. E crises abrem espao para discursos polticos, fazem surgir novos pensamentos. Alm disso, tivemos uma sociedade receptiva, homognea o suficiente para compreender algo assim, e tecnolgica o bastante para que as pessoas participassem.

Alm da crise, o que mais colaborou para que esse projeto desse certo na Islndia?
Foi uma vantagem sermos um pas pequeno, onde  fcil conseguir que as pessoas se envolvam. Somos poucos, mas o suficiente para causar impacto, se quisermos. Fora isso, mais de 95% da populao tem internet e 100%  alfabetizada. Os islandeses so educados, tm acesso  mdia.

Uma iniciativa como essa poderia funcionar em um pas maior?
O processo aconteceria de um jeito diferente, mas poderia funcionar, sim. Acho que o que vale  o convite para que as pessoas participem, que  quase mais importante do que elas participarem de fato. Tambm  fundamental saber que as necessidades so diferentes em lugares diferentes. Voc no pode forar uma mudana em uma sociedade que no precisa dela. Tem de haver uma demanda por mudanas.

Isso daria certo no Brasil?
Sim, talvez mais certo do que em outros pases, porque vocs tm uma herana muito interessante de participao popular. Claro que a maioria no participaria, mas uma parte, sim. Eu acredito que esse tipo de exerccio vai ser cada vez mais comum.

H quem chame essa de uma nova forma de democracia direta por meio da internet. Voc concorda?
A nova Constituio foi criada por 25 pessoas, que foram impactadas pelo pblico em geral. Ento houve um filtro, isso no  democracia direta.

Mas o senhor acredita que esse  o caminho? Transformar pela internet?
Estamos em um ponto de virada no que diz respeito ao desenvolvimento da democracia. Agora, estamos nos movendo para uma forma mais participativa de democracia. Eu sinto que essa  a primeira vez que a tecnologia pode ser usada democraticamente. Temos essa tecnologia h anos, mas no tnhamos uma populao pronta para isso. At agora. Quando comearmos a ver esses exemplos se acumulando, vai ser mais fcil dar um passo para frente e realmente integrar mecanismos participatrios na tomada de deciso. Eu acredito que organismos participativos so importantes para aumentar processos democrticos representativos tradicionais, trazendo a tomada de decises de volta para as pessoas. As mudanas esto vindo, quer voc goste ou no, concorde ou no. O desafio  se organizar para que essas mudanas sejam construtivas. No sabemos o que vai acontecer. E isso pode ser usado para o bem ou para o mal. 


8. ARTE  1 MILHO EM ARTE
Quanta arte voc consegue comprar com R$ 1 milho? Juntamos aqui os quadros mais caros do mundo e calculamos a rea equivalente ao valor. O resultado  pouca coisa: o canto do sorriso da Mona Lisa e a boca do Grito.

MONA LISA (LA GIOCONDA) (1503 A 1506)
Leonardo da Vinci
PREO ESTIMADO: R$ 1.530.000.000
1 MILHO COMPRARIA: 1,6X1,6 cm
O quadro mais famoso do mundo no tem valor de venda. Seu preo foi estimado para a criao de um seguro contra roubo. A primeira avaliao da pintura foi feita em 1963 e foi determinada como U$ 100 milhes. O valor de hoje  o reajuste dessa primeira avaliao.

1- OS JOGADORES DE CARTAS (1893)
Paul Czanne
Preo de venda: R$ 500.000.000.000
1 milho compra: 2,2X2,2 cm
O quadro faz parte de uma srie de cinco pinturas feitas por Czanne entre 1890 e 1895. Ele foi arrebatado pela famlia real do Catar, que pretende virar uma referncia mundial em arte. J as outras quatro obras da srie esto expostas em museus.

2- RETRATO DE ADELE BLOCH-BAUER (1907)
Gustav Klint 
Preo de venda: R$ 270.000.000
1 milho compra: 8,3X8,3 cm
A obra retrata a esposa de Ferdinand Bloch-Bauer, um rico industrial de Londres que financiava as obras de Klimt. O quadro, como muitos outros do pintor, ficava em exposio na casa dos Bloch-Bauer, at ser confiscado pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial. Anos depois, em 2006, aps travar uma batalha com o governo austraco, a sobrinha de Ferdinand retomou cinco obras de Klimt, entre elas, esta  leiloada no mesmo ano.

3- O GRITO (1895) 
Edvard Munch
PREO DE VENDA: R$ 239.844.992
1 MILHO COMPRA: 4,4X4,4cm
O comprador de uma das obras mais importantes do expressionismo preferiu no se identificar. Mas a obra no est escondida. Outras trs verses dela esto expostas ao pblico: duas no Museu Munch, em Oslo, e a outra na Galeria Nacional de Oslo.

4- NU, FOLHAS VERDES E BUSTO (1932)
Pablo Picasso
PREO DE VENDA: R$ 212.964.992
1 MILHO COMPRA: 9,91X9,91CM
Leiloado em 2010, o quadro  uma representao da amante do artista, retratada pelo olhar cubista do pintor. Ele s foi mostrado ao pblico duas vezes. A primeira, em 1961, quando Picasso faria 80 anos. A segunda foi em 2011, j em posse de seu novo (e annimo) comprador, que autorizou a exposio da obra na Tate Gallery de Londres.

5- RAPAZ COM CACHIMBO (1905)
Pablo Picasso
PREO DE VENDA: R$ 208.336.000
1 MILHO COMPRA: 6,2X6,2 cm
Feita no incio da carreira, a obra  considerada uma das principais do perodo rosa de Picasso. Mas os crticos de arte ficaram espantados com o valor que ela alcanou: consideraram que era uma quantia muito alta por um quadro "menor" do pintor.

6- DORA MAAR AU CHAT (1941)
Pablo Picasso
PREO DE VENDA: R$ 190.432.000
1 MILHO COMPRA: 8,12X8,12 cm
Pintado no incio da Segunda Guerra Mundial, o quadro retrata a mais famosa amante de Picasso, Dora Maar, que viveu com o pintor por dez anos. Durante dcadas, a obra, que pertencia a colecionadores, no foi exibida, at que em 2005 participou de uma exposio mundial.

7- RETRATO DE ADELE BLOCH-BAUER II (1912)
Gustav Klimt
PREO DE VENDA: R$ 175.872.000
1 MILHO COMPRA: 11,3X11,3 cm
Eis Adele Bloch-Bauer, de novo. Ela foi a nica modelo que Gustav Klimt pintou mais de uma vez. A obra tambm caiu nas mos dos nazistas e acabou leiloada em 2006.

8- LARANJA, VERMELHO, AMARELO (1961)
Mark Rothko
PREO DE VENDA: R$ 173.764.992
1 MILHO COMPRA: 16,7X16,7 cm
Trs retngulos, um amarelo e dois laranjas, pintados em um fundo vermelho. Pode parecer simples, mas essas formas geomtricas constituem o quadro contemporneo mais caro j vendido em leiles. Foi pintado por Mark Rothko, artista plstico russo, naturalizado americano.

9- TRPTICO, 1976
Francis Bacon
PREO DE VENDA: R$ 172.562.000
1 MILHO COMPRA: 13X13 cm
Composta por trs partes, a Trptico, 1976,  uma das obras mais importantes do irlands Francis Bacon, considerado um dos mais respeitados pintores do sculo 20.  A tela foi arrematada por um comprador que no quis se identificar.

10- RETRATO DO DR. PAUL GACHET (1890)
Vincent van Gogh
PREO DE VENDA: R$ 165.000.000
1 MILHO COMPRA: 4,8X4,8 cm


9. ECONOMIA  QUANTO CUSTA UM PAS
O povo foi s ruas exigir sade, educao e servios pblicos de qualidade. Afinal, dinheiro para isso o Brasil tem, certo? Mais ou menos. Entenda por que, mesmo cobrando tantos impostos, o pas continua sem recursos para fazer as coisas direito. (Dica: no  s a corrupo).
REPORTAGEM Andreas Mller, Ricardo Lacerda e Bruno Garattoni
DESIGN Jorge Oliveira
EDIO Bruno Garattoni

CARGA TRIBUTRIA (EM % DO PIB)
ARGENTINA 37,2
CHILE 18,6
PARAGUAI 12
BRASIL 34,4
VENEZUELA 25
MXICO 29,7
EUA 29,9
FRANA 44,6
REINO UNIDO 39
ALEMANHA 40,6
NORUEGA 43,6
SUCIA 45,8
DINAMARCA 49
ITLIA 42,6
ARBIA SAUDITA 5,3
CHINA 17
COREIA DO SUL 26,8
FRICA DO SUL 26,9

O Brasil tem PIB per capita muito baixo. Por isso, mesmo cobrando bastante imposto, o governo arrecada pouco.

A gente paga tanto imposto... 
     Se voc ganha salrio, sabe bem quanto dele  descontado na fonte, a ttulo de imposto de renda.  bastante. E tambm sabe como  alta a porcentagem de impostos nos preos dos produtos (desde junho, as notas fiscais devem indicar a quantidade de tributos embutidos no valor das coisas). Impostos, impostos, impostos. O Brasil  o pas dos impostos. E da corrupo. Os polticos roubam muito, e por isso os servios pblicos so ruins. 
     Tudo isso  verdade. Mas no  toda a verdade. Existe um outro lado, que pouca gente conhece, e  a chave para entender o Brasil. Sim, voc paga muito imposto. Mas o governo (municipal, estadual, federal) arrecada pouco. 
     No caso, US$ 4.085 por habitante, por ano.  isso o que a mquina do Estado arrecada  e o que tem para gastar com todos os servios pblicos prestados a cada pessoa. Todos mesmo. Hospitais, universidades, escolas, polcia, cadeias, tribunais, ruas, estradas, portos, investimentos... pense em qualquer servio prestado pelo Estado. A verba, para custear todas as despesas dele, e pagar os funcionrios envolvidos, sair desses US$ 4.085. Esse  o valor que todas as esferas de governo tm, somadas, para gastar com voc. Parece bastante. 
     S que no . Observe o infogrfico ao lado. Os nmeros esto todos em dlar, mas j corrigidos pela paridade do poder de compra (um critrio que ajusta o valor conforme o preo das coisas em cada pas). Voc ver que os pases desenvolvidos arrecadam pelo menos o triplo de dinheiro por habitante  e, portanto, tm pelo menos o triplo para investir em servios pblicos. Os pases cujos servios so mais celebrados, como Sucia e Noruega, arrecadam at cinco vezes mais dinheiro por habitante que o Brasil. O Brasil simplesmente no arrecada o suficiente para prestar servios de primeiro mundo. Para que tivssemos servios bons, nossos governos teriam de ser capazes de fazer verdadeiros milagres  como construir escolas e hospitais gastando um tero do que os americanos gastam, por exemplo (pois os EUA tm US$ 13.429 por ano, o triplo do Brasil, para investir em cada habitante). 
     A conta simplesmente no fecha. At pases subdesenvolvidos, como Argentina e Mxico, arrecadam mais dinheiro do que ns (e o Mxico consegue fazer isso cobrando menos impostos). Mas como  possvel? Por que o Brasil arrecada to pouco, se todo mundo paga tanto imposto? Afinal, ns somos a stima maior economia do planeta. S que essa produo  dividida por um pas com 197,4 milhes de pessoas, a quinta maior populao do mundo. Faa as contas e voc ver o resultado: nosso PIB per capita  de apenas USS 11,8 mil por habitante, o que nos d o nada honroso 74 lugar no ranking global. " um desempenho de pas pobre", diz Margarida Sarmiento Gutierrez, professora da UFRJ e especialista em finanas pblicas. Sim, ns somos um pas pobre. Isso significa que, para cada indivduo que paga muito imposto sobre o salrio e sobre os produtos que consome, h um monte de pessoas que pagam pouco  porque ganham pouco e consomem pouco. Nos ltimos dez anos, a economia brasileira criou 14,6 milhes de empregos formais, com carteira assinada. O problema  que o salrio mdio de contratao, segundo dados do Ministrio do Trabalho,  de R$ 1.011. Renda de pas pobre, que gera arrecadao de pas pobre  e servios de pas pobre. Para piorar, os ricos tambm pagam pouco imposto (mais sobre isso daqui a pouco). 
     Essas so as ms notcias. A boa notcia  que existe soluo. Na verdade, mais de uma.

SOLUO 1 
H pelo menos quatro maneiras de reverter esse quadro. A primeira delas  acelerar o crescimento da economia. Se o Brasil dobrar seu PIB per capita, dobrar o dinheiro disponvel para servios pblicos. Ainda ficaramos bem atrs dos pases desenvolvidos, mas alcanaramos a Coreia do Sul, um bom exemplo de pas emergente. Para que isso acontea, o Brasil precisaria crescer 4,7% ao ano durante os prximos 17 anos (veja quadro na pgina ao lado). No  nada de outro mundo. A China, por exemplo, conseguiu crescer em mdia 9,5% ao ano durante 24 anos seguidos. O problema  que o Brasil raramente ala voos altos  e sobretudo prolongados. O pas tem problemas estruturais crnicos, como a precariedade de infraestrutura (estradas, portos, rodovias) e falta de gente qualificada para trabalhar nas empresas  segundo o IBGE, 82,9% dos trabalhadores brasileiros no possuem curso superior. Por tudo isso, a mdia de crescimento do Pas nos ltimos 17 anos foi de apenas 2,88%. Quase a metade do que precisamos.
     
SOLUO 2 
Outra sada  buscar novas fontes de recursos. A maior delas  o petrleo do pr-sal. Somando royalties e outras compensaes, ele dever render at R$ 108 bilhes ao governo federal e R$ 171 bilhes para Estados e municpios. Ao todo, R$ 279 bilhes. O Congresso Nacional discute um projeto de lei que foraria a aplicao desse dinheiro em sade e educao (at a concluso desta edio, ela no havia sido votada).  bastante verba, e poderia sim fazer uma boa diferena  veja no quadro ao lado. Mas no resolve tudo.
     
SOLUO 3
Outra alternativa para melhorar os servios pblicos seria aumentar a tributao. "Se quisssemos ter mais investimento pblico, teramos de aumentar mais ainda a carga tributria", diz o economista Darcy Francisco Carvalho dos Santos, especialista em finanas pblicas. Mas  possvel fazer isso sem massacrar a sociedade. A equao  complexa, mas especialistas tm algumas pistas de como solucion-la. No Brasil, 45% da arrecadao tributria vem de impostos cobrados sobre as coisas que consumimos. Nos pases ricos, a mdia  29%. Concluso: ns taxamos demais nossos produtos. "Os tributos que incidem sobre o consumo so os mesmos para pessoas ricas e pobres", diz Joo Eloi Olenike, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributrio (IBPT). Uma possvel sada  reduzir essas taxas, e compens-las criando alquotas mais altas de imposto de renda. Dessa forma, as classes mdia e baixa passariam a pagar menos  porque os produtos que elas consomem seriam menos taxados. E os ricos passariam a pagar mais. Isso porque a alquota mxima de imposto de renda no Brasil  de 27,5%  um valor extremamente baixo pelos padres internacionais. Praticamente todos os pases tm alquotas mais altas, que incidem sobre os cidados de maior renda (veja quadro na pgina 74). Na Sucia, por exemplo, quem ganha mais de US$ 5.400 mensais paga imposto de renda de 56,6%. At pases de carga tributria menor que a brasileira, como EUA, Chile e frica do Sul, cobram impostos mais altos dos cidados de alta renda, com alquotas entre 35% e 40%. "Nesse sistema, cada um paga de acordo com o que pode", explica Olenike. 
Mesmo fazendo tudo isso, o Brasil no conseguir chegar a um patamar de investimento pblico comparvel ao dos pases desenvolvidos. A distncia  muito grande. Veja o caso da educao, por exemplo. Somando tudo que vem do governo federal, dos Estados, das prefeituras e da iniciativa privada, o Brasil investe em educao o equivalente a 5,6% do PIB, segundo a Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE), com base em dados de 2010. O percentual  de pas rico, superior  mdia da prpria OCDE, de 5,4%. Mas, como nosso PIB  muito pequeno, esse percentual acaba se traduzindo em pouco dinheiro. No Brasil, o sistema educacional investe apenas US$ 2.900 por aluno.  trs vezes menos do que o Reino Unido, e seis vezes menos do que os EUA. Por isso, no basta arrecadar mais. Tambm  preciso gastar melhor  e acabar com a bandalheira.
     
SOLUO 4
H um quarto caminho possvel para o Brasil: usar o dinheiro dos impostos de maneira mais inteligente  e mais honesta. A comear pelo excesso de dinheiro que o governo gasta consigo mesmo. O Congresso brasileiro  o segundo mais caro do planeta (veja no infogrfico abaixo). "Parlamentares tm privilgios em todos os pases. Mas, no Brasil, isso ocorre em uma escala muito maior", diz Cludio Abramo, presidente da ONG Transparncia Brasil. Se o Congresso reduzisse seus gastos para o mesmo nvel do Mxico (que tem quantidade de deputados e senadores similar  nossa), seria possvel economizar R$ 7,3 bilhes por ano  mais do que est sendo gasto com todos os estdios da Copa do Mundo.  isso mesmo: o Congresso Nacional desperdia o equivalente a uma Copa por ano. 
Isso sem falar na corrupo. Um levantamento da Fiesp estima que, a cada ano, o Brasil perca pelo menos R$ 41,5 bilhes por causa dela. E olha que somos "apenas" o 69 no ranking das 180 naes mais corruptas do mundo, elaborado pela ONG Transparncia Internacional. "Estamos no meio do caminho, mas est mais do que na hora de o Brasil se reinventar", afirma Jos Ricardo Roriz Coelho, vice-presidente da Fiesp. "Uma populao mais educada pressiona mais", acrescenta ele, se referindo  recente onda de manifestaes nas ruas do Pas. 
S que o grande monstro, o maior de todos, no  citado nos cartazes de protesto e raramente  mencionado pela imprensa. Ele se chama sonegao. Um estudo do Banco Mundial aponta que o Brasil  vice-campeo dessa prtica. Segundo esse estudo, perdemos nada menos do que US$ 280,1 bilhes anuais por conta da sonegao.  uma quantidade astronmica de dinheiro  quase o dobro de tudo o que entra via imposto de renda, por exemplo. Se a sonegao acabasse, seria possvel quintuplicar os gastos federais em sade e educao, por exemplo.  muito difcil, ou impossvel, acabar com ela. Tambm  muito difcil fazer o Pas crescer 4,7% ao ano por 17 anos.  muito difcil matar a corrupo.  muito difcil aumentar os impostos dos ricos  ou convencer os congressistas a reduzirem os prprios salrios. Tudo isso  muito difcil. Mas fazer uma combinao dessas coisas, aplicando um pouco de cada remdio, talvez no seja to difcil assim.

SOLUO 1  CRESCIMENTO ECONMICO
COMO MELHORAR OS SERVIOS PBLICOS
Populao brasileira, em milhes de pessoas
ATUAL - 193,9
2015  200,88
2020  207,14
2025  212,43
2030  216,41
A populao brasileira vai crescer 11-6% nas prximas duas dcadas
 POSSVEL DOBRAR O PIB PER CAPITA - E, COM ISSO, DOBRAR A VERBA DISPONVEL PARA A PRESTAO DE SERVIOS PBLICOS.
Para isso, a economia ter de crescer 123,2% at 2030. Ou seja, CRESCER 4,7% AO ANO, durante os prximos 17 anos. (Nos ltimos 17 anos, nosso PIB cresceu a 2,88% ao ano.)

SOLUO 2  ACHAR NOVAS FONTES DE RECURSOS
COMO MELHORAS OS SERVIOS PBLICOS
USAR O DINHEIRO DO PR-SAL
A explorao de petrleo poder gerar at R$ 273 bilhes ao governo at 2022.
O Congresso Nacional est discutindo uma lei que obriga o pas a investir esse dinheiro em sade e educao.
D uma mdia de R$ 31 BILHES POR ANO.
Seria o suficiente para MANTER 4 UNIVERSIDADES COMO A USP que tem oramento anual de R$ 4,3 BILHES.
E MAIS
13 HOSPITAIS EQUIVALENTES AO HOSPITAL DAS CLNICAS DE SO PAULO, que tem oramento anual de R$ 1 BILHO.

Fontes: IBGE, Projeo da populao do Brasil, reviso 2008; Banco Central; Paulo Csar Ribeiro Lima, consultor da Cmara dos Deputados e especialista da rea de petrleo e gs; USP; Hospital das Clnicas.

SOLUO 3  AUMENTAR OS IMPOSTOS DE QUAM GANHA MAIS
O Brasil poderia aumentar a arrecadao do imposto de renda, criando uma alquota mais alta para taxar quem ganha os salrios mais altos. H espao para fazer isso - praticamente todos os pases tm alquotas de imposto de renda mais altas que a nossa.

MAIOR ALQUOTA DE IMPOSTO DE RENDA
EUA  24 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 35%
ARGENTINA  2,25 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 35%
COREIA DO SUL  22,5 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 38%
FRICA DO SUL  6,25 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 40%
CHILE  12,4 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 40%
ITLIA  8,2 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 43%
CHINA  12,7 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 45%
ALEMANHA  27,4 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 45%
FRANA  7,7 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 45%
REINO UNIDO  20,2 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 50%
HOLANDA  6,1 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 52%
DINAMARCA  6,1 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 55,4%
SUCIA  5,4 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 56,6%
URUGUAI  11,9 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 25%
BRASIL  1,9 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 27,5%
MXICO  2,5 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 30%
VENEZUELA  8,8 mil (salrio que paga a maior alquota do imposto) 34%

Fonte: Individual Income Tax Social Security Rate Survey 2012, KPMG

SOLUO 4  TIRAR DINHEIRO DE OUTRAS COISAS
O CONGRESSO GASTA DEMAIS...
Salrios e despesas do Congresso Nacional, por ano, em dlares:
EUA 5,1 bi
BRASIL 4,4 bi
NIGRIA 2 bi
JAPO 1,3 bi
MXICO 1,1 bi
COREIA DO SUL 625 mil
ARGENTINA 630 mil
Se o Congresso reduzisse seus gastos para o nvel do parlamento mexicano, por exemplo, o Pas economizaria por ano US$ 3,3 BILHES.
Isso  o equivalente, por ano, a R$ 7,36 BILHES.
Mais do que o gasto com todos os estdios da Copa do Mundo - R$ 7,1 bilhes.
 mais que o oramento do ministrio da educao  R$ 38 BILHES ANO

PERDEMOS MUITO DINHEIRO PARA A CORRUPO...
R$ 41,5 BILHES POR ANO 
 quanto o Brasil perde devido  safadeza (somando o desvio de dinheiro em si e perdas de eficincia causadas por negcios escusos).

E A SONEGAO DE IMPOSTOS O Brasil  o segundo pas que mais perde recursos para a sonegao.
Dinheiro sonegado por ano.
EM BILHES DE DLARES
1 EUA 337,3
2 Brasil 280,1   cinco vezes tudo o que o governo federal investe em sade e educao (R$ 117,3 BILHES)
3 Itlia 238,7
4 Rssia 221
5 Alemanha 214,9
6 Frana 171,2
7 Japo 171,1
8 China 134,3
9 Reino Unido 109,2
10 Espanha 107,3

Fonte: Unio Interparlamentar (UIP), Folha de S. Paulo e CBF; Corrupo: custos econmicos e propostas de combate. Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (Fiesp); Shadow Economies All over the World - New Estimates for 162 Countries from 1999 to 2007, Friedrich Schneider e outros. Banco Mundial; oramento da Unio.

